Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

Chumbo e auto-estima: que relação?


Esta notícia permite retirar ilações que, no contexto, qualquer docente poderá facilmente identificar: os alunos que habitualmente apresentam um percurso marcado por retenções repetidas tendem a desenvolver mecanismos de proteção e focam-se, nem sempre pelas melhores razões, noutras dimensões da vida escolar, afastando-se do objetivo da aprendizagem. São alunos que não valorizam a escolarização, e por isso mesmo, a sua auto-estima não é "beliscada" pelo insucesso escolar..simplesmente já desistiram.  É importante prevenir esta indiferença, atuando na sua origem e, simultaneamente, apoiar os alunos mais fragilizados no seu auto-conceito, dando-lhes apoio e criar janelas de oportunidade, para que o maior número de alunos possam recuperar aprendizagens.

"O professor do ISPA Francisco Peixoto coordenou um trabalho de investigação junto de adolescentes portugueses para tentar perceber o efeito do insucesso escolar nos níveis de auto-estima.

Quando comparamos alunos que nunca repetiram ano nenhum com alunos que têm pelo menos uma repetência verificamos que têm níveis de auto-estima semelhantes”, contou à Lusa Francisco Peixoto.

Isto porque, perante o insucesso escolar, os estudantes têm tendência a investir noutras áreas do auto-conceito para conseguir manter uma imagem positiva de si próprios. “Quando o auto-conceito académico é mais baixo, acabam por compensar isso com outras áreas como a das relações sociais, do desporto ou das relações interpessoais com o sexo oposto”, explicou o investigador.

De acordo com a investigação, a redução da auto-estima acontece apenas na primeira vez que reprovam.

“O que marca a diferença é terem repetido um ano. Depois, a 2ª ou 3ª repetência é indiferente porque o auto-conceito académico já estabilizou e não baixa muito mais”, refere.

Afinal, quem tem a auto-estima mais em baixo são os alunos que nunca chumbaram, mas vivem durante o ano lectivo a possibilidade de tal acontecer.

(...) Estes alunos, ao contrário do que acontece com os que reprovam, sentem que pertencem à escola e consideram que a educação é importante. Dão valor às notas e aos resultados.

Nos casos em que os jovens não conseguem lidar com o insucesso e mantêm a auto-estima baixa a situação pode tornar-se preocupante. O investigador lembra que a depressão está associada a níveis baixos de auto-estima e que, nestes momentos, a família desempenha um papel importante, porque “pode ter um efeito amortecedor”.

“Na adolescência, a escola ocupa grande importância e o facto de estar mal na escola pode ser compensado por outras áreas da vida. Claro que se aprenderem a lidar eficazmente com a situação, acabam por se tornar mais adaptados”.

2 comentários:

F.Tavares disse...

O insucesso é o capote que cobre e justifica a inação das elites – o problema está nos que não estudam, que não vão à escola, que não têm regras, que não aprendem – em nome da justificação da sobrevivência deste sistema educativo, que serve à reprodução dessas mesmas elites a todos os níveis.
A escola de hoje é universal, não pode continuar a ser desenhada e organizada em função dos interesses de uns poucos.
Quanto a mim o que é surpreendente não são os valores do insucesso, mas os do sucesso que ainda este sistema apresenta! A maioria ainda vai à escola, ainda estuda, sem saber muito bem porquê! E sobrevive.
Os que ficam de fora, sem nunca terem de facto estado lá dentro, aprenderam a gerir a situação, investindo noutras áreas como refere o estudo.
É mais uma prova da capacidade adaptativa, que possuímos enquanto sociedade, ao que nos é desinteressante e alheio.
Mas até quando? Os jovens licenciados já mostraram o seu desagrado. O desemprego jovem é preocupante. A coesão social está em risco.

Sofia Sousa disse...

É de facto lamentável que os alunos marcados pelo insucesso tenham de desenvolver este tipo de mecanismos de defesa, tão prejudiciais aos outros como a si próprios. Afinal são anos de vida pouco rentabilizados para algo que lhes pudesse criar oportunidades de emprego, crescimento e desenvolvimento pessoal. Mas penso que também a escola, e os seus agentes, que todos os dias lidam com a diversidade de situações, e pessoas, concentram já grandes esforços em desenvolver soluções "locais" - existe uma grande preocupação em devolver sentidos à aprendizagem, contando já com os recursos limitados existentes. Mas como psicóloga escolar, lamento que de facto ainda não haja um investimento mais sério nos percursos vocacionais e de preparação profissional no ensino básico.