Sou professora de uma turma Ninho do 8º ano, e quando o Ninho foi formado no início do ano, a professora titular forneceu-me algumas informações relativamente aos quatro alunos que iriam ficar comigo. O C. foi o aluno que me chamou mais à atenção, não só porque, segundo a colega, era um aluno com imensas dificuldades de concentração/ atenção, de aprendizagem, mas sobretudo com dificuldades de relacionamento. Logo na primeira aula, o C. isolou-se na sala (e a sala é bem pequena), mal levantava a cabeça, mal respondia às minhas solicitações, era introvertido, e quando os colegas falavam com ele, ele simplesmente ou não respondia, ou dizia qualquer coisa “entre dentes”, imperceptível. Percebi mais tarde que não gostava de aulas, e estava ali por obrigação. Sempre que eu ia para as aulas, pensava numa forma de motivar o C., mas infelizmente saia sempre com um enorme vazio, fracasso, e incapacidade de lidar com este desafio. No entanto, eu continuava a acreditar…
O primeiro conteúdo programático a ser leccionado no 8º ano, e em termos de revisão/ consolidação, foi o texto poético. Todos nós sabemos a dificuldade que existe em conquistarmos os alunos com este tipo de texto, porém, é para mim um prazer enorme “inventar” estratégias/ actividades para os cativar e levá-los a gostar de poesia. Só que nenhuma delas funcionava com o C., e ele continuava no seu canto, em silêncio, no seu mundo. Inesperadamente, e sem pensar em qualquer tipo de intenção, comecei a reparar que nalgumas aulas, o C. fazia uns “rabiscos” no seu caderno. E numa aula, aqui sim, intencionalmente, e a propósito de uma poesia de Eugénio de Andrade, “Paisagem”, perguntei ao Ninho quem sabia desenhar. O C. levantou a cabeça, os colegas responderam de imediato: “O C. stora!”. (Confesso que era esta a reacção que eu esperava). Ele olhou para mim, e eu perguntei: “Queres ir ao quadro C.? Quero desafiar-te.” Incrédula, vi o C. levantar-se, dirigir-se ao quadro, e agarrar na caneta que estava na secretária. “Que quer que eu faça, stora?”, perguntou ele. Senti uma alegria interior. O C. estava a ter um diálogo comigo! E foi aí que o desafiei: “Quero que pintes o poema que os teus colegas acabaram de ler. Vou pedir-lhes para lerem o poema devagar, e tu vais desenhando o que ouves.” E assim foi. Começou a desenhar, cada linha, cada verso, cada imagem que ia “ouvindo”. E nós, cá atrás, estávamos sem palavras. Sem reacções. Apenas olhávamos, em silêncio, cada traço, cada curva, cada figura do C.. E no final, todos aplaudimos. Eu, com uma enorme satisfação, abracei-o, e tirei uma fotografia da “pintura”. O C. sorriu, agradeceu, e manteve o mesmo sorriso até ao final da aula. A partir desta aula, a atitude do C. mudou completamente. É o primeiro a chegar à aula, quer participar, ir ao quadro, tomar apontamentos no caderno diário, e até escrever. Sim, ele escreveu um poema! Também me senti satisfeita quando o C. quis ficar comigo na sala a realizar o teste de avaliação, ao contrário dos colegas que foram realizá-lo na turma Fénix. Mas mais orgulhosa fiquei quando recebo um email da professora a dar-me conta dos resultados do teste, e escreve: “O C. progrediu, apesar de ter negativa (40%). Fiquei surpreendida, por exemplo, com o poema dele...” Hoje mesmo me disse que se notou que a nível da escrita, o C. estava muito mais “aberto” e “livre”.
É com esta “história fantástica” e exemplificativa, que pretendo mostrar a todos (as) os (as) colegas que é possível acreditar, mesmo quando pensamos que não vamos conseguir. Não desistam. Dentro de cada aluno, há uma resposta e um sinal, mais precisamente uma chave, para chegarmos até eles. Sucesso não é só levá-los a atingir resultados, é sobretudo levá-los a ganhar confiança neles próprios, e levá-los também a acreditar que são capazes de conseguir. Tenho a certeza que quer eu, quer o C., vamos conseguir atingir resultados, mas para isso, o passo mais importante já foi dado: o da esperança.
Paisagem
Uma azenha parada.
Uma torre erguida
de fraga em fraga
contra o céu de cal.
E um silêncio talhado
para o voo dum moscardo
alastra de casa em casa,
sobe à torre abandonada
e sobre a azenha parada
tomba desamparado.
Eugénio de Andrade - Primeiros Poemas
Desenho elaborado pelo C.

Poema criado pelo C. no teste de avaliação
Sílvia Feio
Professora de Língua Portuguesa da Escola Secundária com 3º Ciclo da Gama Barros

6 comentários:
O incentivo é mesmo a palavra de ordem quando se trata de falar de turmas Fénix, essencialmente dos Ninhos. O reforço pela positividade daquilo que se consegue ‘agarrar’ é, sem dúvida, o momento em que se conquista ou não um aluno como o C. Não se trata aqui de colocar de parte a exigência, o empenho ou o rigor, muito pelo contrário. Trata-se de ter ganho terreno, de ter chegado até…, de ter conquistado. Fico feliz por constatar que os professores são sensíveis a estas situações. No nosso agrupamento também têm sido várias as formas/ estratégias/ esforços através dos quais temos conquistado estes alunos do 1º ao 3º ciclo.
Relembraria, e só para dar outras sugestões, a questão do apadrinhamento entre ciclos, onde os alunos (também das Fénix) se vêem envolvidos (logo responsabilizados e cativados) para a produção de materiais e a sua apresentação aos outros ciclos. Por exemplo, no ano transacto, e a propósito do projecto “Beiriz adopta um escritor” a maior parte dos alunos, e sobretudo os alunos das turmas Fénix, quiseram participar de forma activa na leitura e consequente análise das obras do escritor Álvaro Magalhães, o que resultou no envolvimento de todo o agrupamento na produção de trabalhos.
Este ano, e querendo cativar os alunos de 9º ano (que rejeitam sistematicamente a escrita e cujas dificuldades face ao registo escrito são bem notórias), já implementamos um suporte informático de divulgação e projecção dos trabalhos que os alunos irão produzir a partir de desafios interpretativos relacionados com actividades do seu quotidiano, assuntos de debate ou simples questões situacionais e de cidadania, de outras leituras plásticas, e ainda da interpretação da obra 900 – História de um Rei, onde teremos a participação do escritor Pedro Seromenho num trabalho semanal de comunicação com os alunos.
Acredito que todos vamos conquistar esta gente que não gosta de ler e muito menos de escrever!
Nada mais é necessário dizer quanto à grandeza da prática da docente...
Mas como muitos são como "S. Tomé", é muito bom ver aqui publicada esta "prova"!
Mais existam, para que se mudem as vontades!
Podemos olhar para o exemplo aqui descrito na perspectiva do copo meio cheio ou meio vazio…
Há quem possa dizer “…continua com negativa…”
Mas não será este o primeiro (grande) passo para que as aprendizagens comecem a realizar-se?
Mas o que é uma turma Ninho? Sou prof há 30 anos e nunca ouvi falar de tal.
Caro anónimo,
O termo "ninho" está associado a um projecto, inicialmente concebido e implementado no Agrupamento de Beiriz - o Projecto Fénix, e que neste momento está alargado a 44 escolas, no âmbito do Programa Mais Sucesso Escolar.
Poderá obter mais informações aqui http://voxnostra.blogspot.com/search/label/projecto%20f%C3%A9nix ; e aqui http://campoaberto.wordpress.com/projecto-fenix/.
Fiquei muito emocionada com o relato.
Não basta a gente saber todas as teorias educacionais que nos são apresentadas, mas precisamos ter um olhar mais profundo em direção ao nosso aluno.
Parabéns, que Deus ilumine os teus dias....
Beijos
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