Quinta-feira, 10 de Junho de 2010

"Há uma paranóia das notas"

António Câmara – Cientista e Professor Catedrático da Universidade Nova de Lisboa
Responsável por essa lição de optimismo que é a YDreams, empresa de novas tecnologias com ramificações pelo mundo, António Câmara, 55 anos, deu uma entrevista à revista Visão e pelo seu interesse a postamos...


O que pensa desta ideia de os rapazes estarem a ficar para trás? Será que a escola favorece as raparigas?
Não acredito nisso. O que acontece é um pressão dos pares – e isso sucede entre rapazes. Nas raparigas, é mais difícil encontrar uma que diga: “Agora vamos partir isto tudo.” Há uma paranóia das notas no sistema português. Aqui, na YDreams o que conta é o portfolio da pessoa. O que interessa é o que o estudante sabe fazer. Temos que avaliar o empenho.

Defende que não se pode fazer o trabalho de hoje com os métodos de ontem e continuar cá amanhã. Quer explicar?

Há pouco tempo, fez-se um inquérito no Instituto Superior Técnico, onde estão os estudantes mais bem sucedidos do país, sobre a quantidade de horas por dia que eles jogavam videojogos. As respostas variaram entre as três e as quatro horas. Sucede que os videojogos têm a mais sofisticada tecnologia do mundo. Têm uma qualidade muito superior ao software usado nas escolas. E, para a maior parte dos jovens, é um choque passar deste mundo para um outro, que associam ao séc. XIX.

É essa a principal razão do nosso insucesso escolar?

Os que falham na escola são os que têm um ambiente familiar menos favorável. É imprescindível convencer os pais da importância da escola. Mas não só. Acho que a escola portuguesa não está a ensinar os fundamentos, sobretudo quanto à língua. Parece-me surreal que um miúdo do terceiro ano esteja a fazer análises morfológicas ao português quando ainda mal sabe ler.

Como poderíamos corrigir?
Penso que, mesmo com o programa actual, isso é possível. E as correcções passam por um método muito utilizado no desporto: quando o atleta apresenta problemas, tem um treino individual. Por isso, quando um estudante tem problemas na escola, deve ser acompanhado individualmente. Temos de mudar este sistema colectivista para um mais individual.

O que é preciso para fazer isso?

Prende-se com o desenho das escolas, no futuro. Nos EUA, no final dos anos 1980, já se sabia que ia haver internet, e que muitas matérias iam ser estudadas na rede. Mas também já se sabia que havia necessidade de contacto com os alunos. Como ia haver menos aulas, os responsáveis que tinham construído salas novas questionaram-se sobre o que haviam de fazer com elas. E a resposta foi: bares. Lugares onde os estudantes podem encontrar os professores num contacto informal. Eu passei a vida num contacto formal com os professores - e a percepção com que fiquei é que estava ali a ser filtrado apenas através de exames. Hoje, a juventude continua a olhar da mesma maneira para a escola.
(…)

Seria também uma maneira de motivar os professores?

A atitude do professor é tudo. Tem de garantir que o aluno percebe os fundamentos. E, também, convencê-lo de que aquela matéria vai ser a paixão da vida dele. No mercado de trabalho, o mais importante é mesmo a paixão. Os professores fantásticos da minha vida foram aqueles que me conseguiram convencer a estudar aquilo que eles ensinavam.
(…)

Mas esse ambiente que descreve é sobretudo universitário…

Não, não, no secundário também. Porque não? As escolas estão muito bem equipadas. O problema do sistema que actua é que se perde metade dos alunos: o fundo da sala já não está lá.

A escola tem que ser também divertimento?

É como no desporto: as pessoas trabalham imenso, mas têm prazer no que fazem. Como professor, procuro que os meus alunos sejam melhores pessoas no fim. Não estou ali para os filtrar, para lhes por uma rasteira no teste e apanhá-los. Há professores que acham que têm um grande cadeirão porque chumbam 90% dos alunos. Se isto acontecesse lá fora era um insucesso. As taxas de insucesso que nós temos são vergonhosas. E a primeira responsabilidade é do professor.

4 comentários:

JMA disse...

Totalmente alinhado como o meu pensamento, a minha investigação e (espero) com a minha acção! Obrigado por esta excelente partilha.

Raul Martins disse...

Nem mais! Também agradeço a partilha que vou levar comigo.

Luisa moreira disse...

Caros JMA e Raul,
É através de reflexões como esta, e sobretudo com a sua partilha, que podemos levar a outro nível a escola pública.

Rafaela Miranda disse...

Concordo plenamente! De facto, o que deveria mesmo ser considerado como relevante para os professores e para as escolas era o know-how e empenho dos alunos e não as suas médias exactas porque, muitas vezes, o que acontece, e injustamente!, é de os alunos mais fracos serem favorecidos e dos menos fracos não. Dou um exemplo, na minha escola o instrumento complementar supostamente beneficia o aluno, ajudando a melhorar a sua média à disciplina contudo o que acontece é que ao fazer as contas matemáticas e exactas o IC acaba apenas por valorizar a nota de quem tem média baixa e que, muitas vezes não se esforça tanto como quem tem média mais elevada. Na minha opinião, as escolas têm de deixar de "contabilizar" os alunos porque o seu esforço, dedicação e empenho porque isso não é algo "contabilizado" através de contas 1+1 mas sim, através das observações por parte do professor. Assim sendo, considero que o sistema português deveria estar menos preocupado com as aparências e notas e mais com a questão de "formar" alunos e de reconhecer o seu esforço de forma individual e subjectiva, porque só assim se consegue uma avaliação justa para todos.